sábado, 5 de julho de 2008

"eu nunca falaria com ela a esse respeito, que seu nome me chegava como perfumes que atraem e repelem ao mesmo tempo, como a tentação de acariciar o lombo de uma rãzinha dourada sabendo que o dedo vai tocar a própria essência da viscosidade. Como dizê-lo a alguém se tu mesmo não poderias saber que a menção do teu nome, o trânsito de tua imagem em qualquer lembrança alheia me despe e me vulnera, me joga dentro de mim mesma com esse impudor total que nenhum espelho, nenhum ato amoroso, nenhuma reflexão impiedosa podem dar com tanto rancor; que te quero bem à minha maneira e que esse carinho te condena porque te torna meu delator, aquele que por ser querido e me querer me despoja e me despe e me faz ver-me tal qual sou; alguém que tem medo e não dirá jamais, alguém que faz do seu medo a força que leva a viver como vive"




Julio Cortázar
62 Modelo para armar


quarta-feira, 4 de junho de 2008

carta a D.

"o prazer não é algo que se tome ou que se dê. Ele é um jeito de dar-se e de pedir ao outro a doação de si. Nós nos doamos inteiramente um ao outro."


"o amor é o fascínio recíproco de duas pessoas por aquilo que elas tem de menos dizível, de menos socializável; de refratário aos papéis e imagens delas mesmas que a sociedade lhes impõe; aos pertencimentos culturais. Nós podíamos pôr quase em comum exatamente porque a princípio não tínhamos quase nada. Bastava que eu consentisse em viver o que eu estava vivendo, em amar mais que tudo seu olhar, a sua voz, o seu cheiro, seus dedos afilados, o sei jeito de habitar seu corpo, para que todo o futuro se abrisse para nós".


André Gorz

terça-feira, 25 de março de 2008

de sentimentos e idéias



"quando amamos, não cessamos de nos fazer indagações: se é honesto ou desonesto, se é inteligente ou estúpido, aonde nos levará este amor, e assim por diante. Se isto é bom ou mau não sei dizer, mas que atrapalha, naõ satifaz e irrita, isto eu sei."


"Eu compreendi que quando se ama, é necessário nos pensamentos sobre esse amor, partir de algo mais elevado, mais importante do que infelicidade ou felicidade, pecado ou virtude no seu sentido corriqueiro, ou então não se deve pensar de todo".


Do amor, de Anton Tchekov

sexta-feira, 7 de março de 2008

cartas a um jovem poeta

"Alegre-se com seu crescimento, para o qual não pode levar ninguém junto, e seja bondoso com aqueles que ficam para trás, seja seguro e tranqüilo diante deles, sem perturbá-los com suas dúvidas nem assustá-los com uma confiança ou alegria que eles não poderiam compreender. Procure construir com eles algum tipo de comunhão simples e fiel, que não precise ser alterada à medida em que você se modifica cada vez mais. Ame neles a vida em uma outra forma"




"Não se deixe enganar por sua solidão só porque há algo em você que deseja sair dela. Justamente este desejo o ajudará, caso o senhor o utilize com calma e ponderação, como um instrumento para estender sua solidão por um territóio mais vasto. As pessoas (com o auxílio das convenções) resolveram tudo da maneira mais fácil e pelo lado mais fácil da facilidade; contudo é evidente que precisamos nos aferrar ao que é difícil, tudo na natureza cresce e se defende a seu modo e se constitui em algo próprio a partir de si, procurando existir a qualquer preço e contra toda a resistência. Sabemos muito pouco, mas que temos que nos aferrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom ser solitário, pois a solidão é difícil; o fato de uma coisa se difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la.

Amar também é bom: pois o amor é difícil. Ter amor de uma pessoa por outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo, não podem amar: precisam aprender o amor. Mas otempo do aprendizado é um longo perído de exclusão, de modo que o amor é por muito tempo, ao longo da vida, solidão, isolamento intenso e profundo para quem ama. A princípio amor nada é do que se chama ser absorvido, entregar-se e se unir com uma otra pessoa. (Pois o que seria a união do que não é esclarecido, do inacabado, do desordenado?) O amor constitui uma opotunidade sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo, tornar-se um mundo, tornar-se um mundo para si mesmo por causa de outra pessoa; é uma grande exigência para o indivíduo, uma exigência irrestrita, algo que o destaca e o convoca para longe [...] a comunhão é o passo final, talvez uma meta para a qual a vida humana quase não seja o bastante."




"[...] porque estamos no meio de uma transição, em um ponto no qual não podemos permancer. É por isso que a tristeza também passa: o novo em nós, o acréscimo, entrou em nosso coração e alcançou seu recanto mais íntimo e meso ali ele já não está mais - está no sangue. E não percebemos o que houve. Seria fácil nos fazer acreditar que nada aconteceu, no entanto nos tranformamos, como uma casa se tranforma quando chega um hóspede. Não somos capazes de dizer quem chegou, talvez nunca cheguemos a saber, mas vários sinais indicam que o futuro entra em nós dessa maneira para se transformar em nós muito antes de acontecer. Por isso é tão importante estar sozinho e atento quando se está triste: porque o instante aparentemente parado, sem nenhuma acontecimento, no qual o nosso futuro entra em nós, está bem mais próximo da vida do que aquele outro ponto, ruidoso e acidental, em que ele acontece como que vindo de fora. Quanto mais tranqüilos, pacientes e receptivos formos quando estamos tristes, tanto mais profundo e firme será o modo como o otro entra em nós"




Rainer Maria Rilke


segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O cavaleiro inexistente, Italo Calvino

"Somos moças do interior, ainda que nobres, tendo vivido sempre em retiro, em castelos perdidos e depois em conventos; excetuando-se funções religiosas, tríduos, novenas, trabalhos de lavoura, debulha de cereais, vindimas, açoitamento de servos, incestos, incêndios, enforcamentos, invasões de exércitos, saques, estupros, pestilências, não vimos nada. O que pode saber do mundo uma pobre freira?"

sábado, 29 de dezembro de 2007

El túnel - Ernesto Sabato

"A veces creo que nada tiene sentido. En un planeta minúsculo, que corre hacia la nada desde millones de años, nacemos em medio de dolores, crecemos, luchamos, nos enfermamos, sufrimos, hacemos sufrir, gritamos, morimos, mueren y otros están naciendo para volver a empezar la comedia inútil".

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

O menino desamparado

"Um passante perguntou a um menino que chorava qual o motivo do seu sofrimento. 'Eu estava com dois vinténs para o cinema', disse o garoto, 'aí veio um menino e me arrancou um da mão', e mostrou um menino que se via a distância. 'Mas você não gritou por socorro?', perguntou o homem. 'Sim', disse o menino, e soluçou um pouco mais forte. 'Ninguém o ouviu?', perguntou ainda o homem, afagando-o carinhosamente. 'Não', disse o garoto, e olhou para ele com esperança, pois o homem sorria. 'Então me dê o outro', disse, e tirou-lhe o último vintém, continuando tranqüilo o seu caminho".